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Archive for the ‘Reflexões’ Category

Há algum tempo não chorava ao ler um texto.

Pelo menos que eu me lembre. De cabeça, me lembro de ter chorado de raiva, de saudade, de dor … mas depois de ter nossa pequena Julie, acho que fiquei mais sensível, emotivo, enfim, humano.

Hoje, perambulando pelo Facebook, me dei conta deste post, que prendeu minha atenção logo ao ler a 1a frase: “Nós estamos sentadas, almoçando, quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em “começar uma família”.

Quem está lendo é capaz de estabelecer a empatia: como sequer se começa a responder uma pergunta destas ? Como explicar o inexplicável ? Como descrever o turbilhão de sensações de se ter um filho/a ? Como aconselhar qq. coisa neste sentido, ainda mais sendo avó ? Dá pra ser isenta, neutra, equidistante ? Dizer que não é simplesmente “brincar de boneca” ?

Só mesmo quem teve para sentir que valeu a pena viver até aqui para, como diz o texto, presenciar uma “gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Quero que ela prove a alegria que, de tão real, chega a doer.

Se vc pensa em ter, já teve, ou mesmo não sabe como seria se tivesse, não deixe de ler.

Bjks,

Fábio

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Foto

Nós estamos sentadas, almoçando, quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em “começar uma família”.

— Nós estamos fazendo uma pesquisa — ela diz, meio de brincadeira. — Você acha que eu deveria ter um bebê?

— Vai mudar a sua vida — eu digo, cuidadosamente, mantendo meu tom neutro.

— Eu sei — ela diz. — Nada de dormir até tarde n
os finais de semana, nada de férias espontâneas…

Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.

Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar: “E se tivesse sido o MEU filho?”; que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar; que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.

Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzi-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote; que um grito urgente de “Mãe!” fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar nem por um instante.

Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.

Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina; que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino, ao invés do feminino, no McDonald’s, se tornará um enorme dilema; que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro.

Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, se questionará constantemente como mãe.

Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que jamais se sentirá a mesma sobre si mesma; que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho; que ela a daria num segundo para salvar sua cria — mas que também começará a desejar mais anos de vida, não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.

Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias, se tornarão medalhas de honra.

O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.

Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que, através da história, tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados.

Eu espero que ela possa entender por que eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que me torno temporariamente insana quando discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro dos meus filhos.

Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta. Quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Quero que ela prove a alegria que, de tão real, chega a doer.

O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos.

— Você jamais se arrependerá — digo finalmente. Então estico minha mão sobre a mesa, aperto-lhe a mão e faço uma prece silenciosa por ela e por mim e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho esse que é o mais maravilhoso dos chamados; esse presente abençoado de Deus, que é ser mãe.

Autor Desconhecido

 

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O_lado_sombrio_da_tecnologia (page 1 of 3)

 

 

 

 

Li nas páginas amarelas da Veja de 9/1/13 uma entrevista com Susan Greenfield, renomada pesquisadora inglesa sobre os efeitos da tecnologia na mente humana.

Ela alerta para o fato de que, em excesso, estímulos da era digital – internet, redes sociais, msgs de texto, videogames e afins – provocam riscos para o cérebro, em particular de crianças.

Imersas no mundo virtual, passando horas a fio na frente de telas – TVs, smartphones, tablets, jogos portáteis, notebooks – em mundo virtuais formados por redes sociais, suas (nossas !) mentes estão sempre em estado de prontidão para responder rapidamente a um email ou msg de bate papo. Tal disponibilidade instantânea para os apelos digitais interativos, dominada pelo sentidos e não pela cognição, deixa a mente em estado semelhante ao provocado pelo Alzheimer ou mesmo pelo autismo.

Quem tem filho pequeno e vê o efeito das Galinhas Pintadinhas sabe do que ela está falando. Se por um lado é uma bênção para os pais (por calar e prender a atenção), por outro lado é fácil imaginar o contraponto … como bem diz a autora:

O cerne do problema é deixar de exercer, por causa da internet, outras atividades essenciais para o desenvolvimento do cérebro e para a manutenção da saúde mental. Passar 5 hs seguidas jogando videogame ou no Facebook pode ser bem estimulante, mas são cinco horas a menos para abraçar alguém, caminhar pela praia, conversar cara a cara com um amigo em um bar ou restaurante.

Crianças se formam subindo em árvores, sentindo o calor da luz solar no rosto, correndo atrás dos amigos em um parque. O perigo é satisfazer-se com um simulacro digital das sensações reais.

Pense na fábula da princesa presa na torre. Existe uma ENORME diferença entre a experiência de ler sobre Rapunzel em um livro e a de participar de um game em que o objetivo é resgatá-la. O livro apresenta à criança a narração plena da história da princesa. A vida dela faz parte de um contexto. Já no game a princesa é apenas um objetivo, não importa nem como ela chegou a ser aprisionada na torre, não se constrói em nenhum momento um vínculo emocional com a personagem, tampouco se discutem as questões éticas de aprisionar alguém ou as virtudes de caráter ou de coração do ato de salvá-la. A única coisa que importa é ganhar o jogo e passar de fase. Parece-me que são duas vias bem distintas.

Reflitam sobre isso antes de gastar dinheiro comprando um videogame pros seus filhos (ou para você), ou deixá-lo, desde criança, perdido e absorto num mundo virtual.

Aqui em casa, videogame não entra e o uso da Internet será restrito e supervisionado, com enfoque em leituras e materiais educativos.

E, com três cachorrinhas, a atividade é garantida. 🙂

Bjks,

Fábio

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Uma vez ou outra, alguém manda um email com uma mensagem, vídeo, imagem(ns) que toca(m) fundo.

Em geral, tal conteúdo já estava disponível nos anais do Youtube, mas – inédito para quem não o conhecia, mas sempre  atual – e faz  valer a pena o restante da enorme quantidade de lixo que se recebe por email.

O tempo e a distância são como filtros da vida real para purificar as verdadeiras – eternas, desinteressadas, fidedignas, fraternas e humanas – amizades. Meus 2 anos de MBA na longínqua Califórnia fizeram exatamente isso.

Afora os familiares, que têm um lugar à parte na nossa vida e no nosso coração, sobram os amigos. Ah … os amigos, e as amigas ! Aqueles/as que você conta no dedo, de UMA, apenas uma !, das mãos. Se tiver que usar mais de uma mão, repense e conte novamente.

Chame-os de chegado, companheiro, camarada, conhecido, queridão, fera !, chapa, sócio, parceiro, chefe, colega … chame do que quiser, mas não se esqueça de saber diferenciar – ainda que só para você mesmo, intimamente – quais são os/as verdadeiros amigos/as.

Aqueles para quem vc ligaria só para chorar qdo souber que alguém muito querido morreu. Ou para dar em primeira mão uma boa notícia, como saber que vai ser pai ou que está de volta ao país depois de uma temporada no exterior.

E, quando uma dia receber uma ligação ou visita assim, saberá que figura numa lista seletíssima dos verdadeiros amigos.

Eu, qdo morrer, espero que meus amigos (re)leiam e (re)vejam o vídeo do imortal Vinícius de Moraes, na voz e interpretação do maravilhoso Rolando Boldrin.

Ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia

E que morramos como quem soube viver direito

A amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente.

E se inaugura aqui mesmo o seu começo.

E espero, assim, ter sido, continuar sendo e no futuro ser lembrado por ser “o seu amigo“,

Fábio

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Alguns episódios pessoais recentes me puseram a refletir sobre a arte de saber desistir.

Muito se fala sobre a importância de insistir, persistir, brigar, arregaçar as mangas, ir a fundo, até a última gota de suor,  blá blá blá … Em geral, este tipo de pensamento de auto-ajuda está voltado a negócio, carreira, empreendedorismo e afins.

Mas muito pouco se fala sobre a sabedoria inerente na desistência seletiva, em particular em âmbito pessoal. Eu explico.

Pessoas são seres de hábitos, que se arraigam ainda mais com o passar dos tempos. Qdo se é criança, é relativamente fácil não apenas educar – tira o dedo do nariz, não cuspa no chão, peça bênção, diga obrigado e por favor – mas também e principalmente mudar hábitos.

Com o tempo, alguns hábitos, pensamentos e pré-conceitos se imiscuem tão profundamente que passam a se confundir com o próprio jeito de ser de certas pessoas. Isso não é inerentemente ruim, ou bom, mas apenas uma constatação da realidade.

O bicho pega quando esta problemática sai da esfera pessoal para a das relações humanas, familiares e de amizade. Brigas, dores e sofrimentos são o resultado de embates de pensamentos, hábitos e desgastes cotidianos, em particular qdo 2 pessoas não conseguem estabelecer um diálogo franco e aberto sobre estes pequenos conflitos.

Mais, ainda, quando uma delas não aprende o essencial, ponto central desta minha reflexão: saber desistir. Não me refiro a sair da relação, chutar o balde, tornar o amigo um inimigo, romper laços por completo.

Eu me refiro a evitar os pequenos embates cotidianos que em nada – NADA – contribuem para engrandecer o relacionamento, ou a uma das pessoas. E que, em geral, quando analisados friamente e em perspectiva, não fazem a menor diferença no grande esquema das coisas.

Exemplos abundam – a tampa da pasta de dente aberta, o prolixismo nos emails, a  hipocondria atávica, o negativismo doentio, a falta de diálogo, a insistência em discussões sobre temas que não levam a lugar algum.

Isso em geral é mais comum em pessoas idosas – já vergadas pelo tempo, é pouco provável que o benefício da mudança (se atingida) irá compensar o esforço desprendido ao longo do processo.

A arte está em saber quando, como e, principalente, se vale a pena simplesmente desistir. Não por completo, mas em diferentes dimensões : relevar, ignorar, fechar os olhos, mudar de assunto, evitar, acostumar-se, enfim … com o tempo dá até para se divertir com os hábitos, manias e trejeitos.

Em outros casos, o sábio é saber isolar. Evitar se deixar atingir por pensamentos, ações e intenções negativas de outrém. Isso é mais comum em “amizades”, particularmente quando se faz algo de peito aberto, desinteressado, e o resultado é inesperado, frio, agressivo e por vezes irracional.

Nestes casos, é preciso saber discernir o quanto vale a pena discutir, insistir, explicar, se desgastar, para tentar mudar uma percepção, um pré-conceito. Ou o quanto simplesmente vale a pena desistir, riscar da cabeça e do coração, deleter da Agenda de Contatos, bloquear no Skype, fazer cara de pôker, seguir em frente.

Tenho apreciado cada vez mais a economia de energia advinda da desistência seletiva quanto a certos embates, em particular aqueles nos quais o resultado final é sabido a despeito da batalha: o pré-conceito arraigado, a continuidade da prática levemente nefasta, a desimportância da mudança de convicções.

A experiência está em saber escolher as batalhas. Ou, em outras palavras, em saber quando, de quem, como e porquê desistir de certas guerras.

Fábio, em ritmo filosófico

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Uma interessante reflexão sobre o ritmo frenético da modernidade instantânea e do imediatismo impaciente.

Por Rosiska Darcy, Presidente do movimento Rio Como Vamos, no Globo.

Paradoxo tragicômico

O velho ditado – a pressa é inimiga da perfeição – foi virado do avesso. Agora nada é perfeito se não for instantâneo.

A aceleração, o fenômeno contemporâneo mais vivenciado e menos compreendido, permeia o cotidiano como uma condenação coletiva e provoca relações ambíguas. De um lado o sentimento lúdico de concorrer consigo mesmo e ganhar o jogo de multiplicar atividades ao longo das inarredáveis horas de um dia. De outro o sentimento de esfacelamento, de nunca pousar em nada, vivendo uma temporalidade de zapping. Nos espíritos sobrecarregados, uma atividade deleta a outra e banaliza todas.

Viciado na aceleração, o psiquismo, por adaptação, se transforma e, na urgência do instantâneo, vai perdendo a capacidade de reflexão. Daí ser mal percebida a revolução cultural que está moldando as dimensões essenciais da vida como trabalho e as relações de amor e de amizade. Esses sentimentos, que amadureciam no tempo da convivência, encolheram em relações virtuais, efêmeras e indolores.

A impaciência que nos ataca quando um clique não produz imediatamente o resultado esperado é uma espécie de regressão infantil, resquício do tempo em que a criança quer tudo, aqui e agora. Corre a lenda que, em Hong Kong, o botão mais usado no elevador é o que apressa o fechamento das portas para ganhar uma infinitesimal fração de segundo.

A parafernália tecnológica, celulares e computadores, o milagroso Google em particular, nos habituaram a receber respostas imediatas a toda e qualquer pergunta. Uma falha de conexão é vivida como uma frustração intolerável. Instaurou- se uma relação perigosa entre informação e conhecimento. A informação estocada, que pode a qualquer momento ser acessada, não precisa ser memorizada para se tornar conhecimento. Em seu sábio “Livro das ignorãças”, Manoel de Barros sentencia: as coisas me ampliaram para menos.

Para os jovens, o ritmo dos grandes clássicos do cinema é insuportável. Hollywood adotou a estética frenética dos clipes de publicidade em que a mensagem deve passar em segundos, antes que a atenção se desvaneça.

Na linguagem escrita o despotismo da pressa se exerce de maneira ainda mais evidente. A carta tornou- se um objeto impensável abduzida no email, no SMS e na mais perfeita expressão da rapidez como valor, os 140 toques do Twitter.

A economia financeira viceja no reino da urgência. Na era industrial a confecção de um produto obedecia aos tempos e ritmos incontornáveis de transformação da matéria. Os produtos negociados no mercado financeiro são, em sua imaterialidade, de confecção instantânea e as fortunas que nele se fazem, meteóricas. Cada investidor se acredita destinado a um dia banhar- se em dinheiro como os bilionários texanos se banhavam em petróleo. O exemplo dos meninos do Silicon Valley, que, em vinte anos, se fizeram os mais ricos do mundo, excita a urgência em enriquecer.

A aceleração, que até aqui foi vivida como fator de progresso, atinge um momento em que pode se tornar fator de retrocesso. A cultura do imediato, do eterno presente, da volatilidade e da fugacidade, não favorece a compreensão de problemas que se estendem no longo prazo, a exemplo da crise ecológica, talvez o maior desafio colocado à inteligência humana. Que mentes viciadas na satisfação instantânea, no estilo zapping, serão capazes de reconhecer e equacionar um problema que se enuncia em décadas e cuja solução exige, hoje, renúncias em nome do amanhã? É mais fácil olhar para o umbigo do que para o horizonte.

As respostas à crise ecológica, que dependem essencialmente de uma mudança de mentalidades e comportamentos de pessoas, empresas e governos, esbarram no paradigma do eterno presente. Exigem sabedoria que permita entender que a tecnologia não impede a deriva dos pólos, a desolação das florestas amputadas, a morte do mar e outros flagelos que reconhecemos como ameaça futura ainda que não tenham ainda invadido totalmente o presente. Exigem um saber que vai muito além da pletora de informações.

O grande T.S. Elliot se perguntava: “Onde está a sabedoria que se perdeu no saber? Onde está o saber que se perdeu na informação?”

A Rio+20 não promete grandes avanços. A conferência é mais uma etapa da lenta negociação de consensos de extrema urgência. O dissenso entre as nações não se resolve com um clique, deletando as relutantes do cenário político. A crise ecológica impõe a aceitação do longo prazo a um mundo viciado no curto prazo. Paradoxo tragicômico. Quando a urgência é vital somos incapazes de rapidez.

O Globo, 13 de maio de 2012

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Idosos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Papai me envia email com comercial do Gov. de Minas Gerais, em que Zezé de Camargo narra um conto de um idoso expulso de casa pelo filho, em função de desentendimentos com a esposa.

O texto é primoroso, como um bom e velho conto mineiro, com conteúdo que vai além da rima fácil, despertando reflexões e questionamentos sobre como lidamos com nossos velhos, sejam pais, avô/ós, outros familiares e amigos.

Embora a expulsão de casa seja um extremo, usado pelo comercial para realmente tocar o espectador, vale perguntar se a cada dia, nas pequenas interações cotidianas, não estamos(ou) cometendo uma pequena “expulsão” … na falta de paciência ao telefone, na rispidez do diálogo, na truculência de tomar para si algo para fazer pq. o idoso naturalmente leva mais tempo …

Sem contar que o  idade “idosa” não tem uma idade específica para começar. Assim como adolescentes não têm data específica para virar adultos, cada um de nós fica mais idoso a cada dia. Não é difícil olhar no espelho e ver que não temos mais o mesmo vigor de anos atrás, mas certamente temos muito mais “cancha” para saber que o que corre é a bola, e não o jogador.

Espero que gostem do vídeo, reflitam profundamente e compartilhem com os seus. E parabéns ao Governo de Minas Gerais por abraçar esta causa.

Bjks,

Fábio

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Uma longa adolescência

Há muito tempo não lia um texto TÃO bom.

Recebi o link para este artigo do Luli Radfahrer numa das newsletters da Fundação Estudar, e arquivei para leitura futura, só realizada agora.

Ele discorre de forma MUITO interessante sobre como o Futuro chegou, ou ainda, está chegando, já que vivemos uma espécia de adolescência deste futuro imaginado.

O parágrafo abaixo é uma pérola sensacional:

Alfabetizados à base de Aplicativos, Bluetooth e Compartilhamento Digital, as crianças que nasceram depois de 2005 são a maior evidência dessa transformação. Bem diferentes de seus pais e irmãos mais velhos, são incapazes de imaginar o mundo desconectado e têm dificuldade em diferenciar Deus do Google. Acima de tudo, não entendem o apego de seus pais a títulos, atitudes, relacionamentos, empregos, instituições e hierarquias que, para eles, não fazem o menor sentido.

Taí mais um que vai entrar pro meu rol restrito de escritores e follows no Twitter.

Espero que tb. gostem do texto.

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Uma longa adolescência

 É incrível como o ambiente se transformou nas últimas décadas. Não é preciso ter cabelos brancos para lembrar da infância como um lugar distante, remoto, caipira. Entre os mais novos é comum a surpresa com a vida pacata de seus pais e avós em comunidades cuja maior rede de comunicação era a fofoca e a realidade mais próxima da Virtual era o Paraíso. Mesmo com eletricidade, TV e telefones, o mundo de 1982 ainda seria compreendido por alguém vindo de 1482.

Não mais. O Futuro, tão anunciado na segunda metade do século passado, parece que finalmente chegou. Presente e imprescindível, ainda que mal-distribuído, ele parece mágica. As inovações cotidianas, de Skype em celulares a chocolates belgas em pleno sertão, são tão rápidas que atordoam. Muitos cultuam Bill Gates, Steve Jobs ou Jeff Bezos, acreditando que a mudança seja invenção deles. Bobagem. Ninguém inventou a confusão, todos são cúmplices.

Alfabetizados à base de Aplicativos, Bluetooth e Compartilhamento Digital, as crianças que nasceram depois de 2005 são a maior evidência dessa transformação. Bem diferentes de seus pais e irmãos mais velhos, são incapazes de imaginar o mundo desconectado e têm dificuldade em diferenciar Deus do Google. Acima de tudo, não entendem o apego de seus pais a títulos, atitudes, relacionamentos, empregos, instituições e hierarquias que, para eles, não fazem o menor sentido.

No mundo que vem por aí não há lugar para absolutos. Tudo se torna cada vez mais relativo, medido por comparações. A ordem foi substituída por um Caos administrado, cheio de variáveis como um videogame. Originais foram trocados por pastiches, o coletivo perdeu importância para o personalizado, a contenção deu lugar ao hedonismo e o comportamento passivo e coletivo parece ter sido substituído por uma postura ativa, egocêntrica, insolente. O mundo offline está cada vez mais parecido com seu equivalente online. A vida continua a imitar a arte.

Sem alarde, a sociedade estática se tornou dinâmica, sujeitando praticamente todas as regras à experimentação. Não existe mais coisa de homem, de mulher, de criança ou de velho. A sexualidade se tornou apenas uma dentre as várias manifestações de uma identidade maleável, que se adapta a cada ocasião. As antigas correntes de pensamento foram combinadas em um ecletismo transmídia, em que hipsters meio intelectuais fazem Yoga em sessões de Pilates, assistem a Missa do Galo, se vestem de branco e atiram flores para Iemanjá.

Não há mais espaço para rótulos ou categorias. Blogs, Twitter, Facebook, YouTube e tantos outros não são revoluções: são a válvula de escape daqueles que, pela primeira vez, passaram a ter voz e influência. A Primavera Árabe e a ocupação de Wall Street mostram que há interesse em participação política, mas não da velha forma. Hoje que Direita e Esquerda fazem parte de um Centrão insosso e desinteressante, a manifestação social mudou de forma.

A Internet e o Celular aceleraram a transformação, ao eliminarem a crença no “amanhã” e colocarem todos em um presente contínuo, hermético, controlado por processos cada vez mais complicados, em que tudo parece mais próximo e transparente. Marshall McLuhan chamaria esse mundo pequeno de Aldeia Global, mas vilarejos são ambientes restritos e limitados, não há aldeia que comporte tantas tribos. Em comunidades fechadas todos queriam pertencer, hoje a regra é se diferenciar. Não há mais tempo para rituais e históricos, a identidade passou a ser externa e baseada em símbolos que mudam rápido. As credenciais são medidas pela informação consumida e exibida em atualizações em mídias sociais.

A mudança é grande e o trabalho para compreendê-la é exaustivo. Como nem todos estão dispostos a esse aprendizado, muitos criam rótulos. Chamam a nova conjuntura de pós-modernidade, de web 2.0, de sociedade do espetáculo, de realidade líquida. Nenhum desses rótulos consegue explicá-la a contento.

Vivemos hoje uma espécie de adolescência, fase turbulenta e necessária, característica de uma mudança de fase. Como a puberdade, não adianta criticá-la, ignorá-la ou classificá-la. É preciso assimilar suas mudanças para reconfigurar a forma de se comportar perante o mundo. Caso contrário a angústia, o estresse e o consumo só aumentarão. E as respostas não virão.

Feliz ano novo. Na beira do abismo que chamamos de Futuro, nada mais será como antes. O homem dos próximos séculos será, provavelmente, bem parecido conosco. Mas falará uma língua intraduzível. Para compreendê-lo é preciso entender a adolescência das interações. E aproveitar o máximo dessa fase para se preparar para o que virá pela frente.

Luli RadfahrerLuli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Mantém o blog http://www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas no caderno “Tec” e na Folha.com.

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