Há muito tempo não lia um texto TÃO bom.
Recebi o link para este artigo do Luli Radfahrer numa das newsletters da Fundação Estudar, e arquivei para leitura futura, só realizada agora.
Ele discorre de forma MUITO interessante sobre como o Futuro chegou, ou ainda, está chegando, já que vivemos uma espécia de adolescência deste futuro imaginado.
O parágrafo abaixo é uma pérola sensacional:
Alfabetizados à base de Aplicativos, Bluetooth e Compartilhamento Digital, as crianças que nasceram depois de 2005 são a maior evidência dessa transformação. Bem diferentes de seus pais e irmãos mais velhos, são incapazes de imaginar o mundo desconectado e têm dificuldade em diferenciar Deus do Google. Acima de tudo, não entendem o apego de seus pais a títulos, atitudes, relacionamentos, empregos, instituições e hierarquias que, para eles, não fazem o menor sentido.
Taí mais um que vai entrar pro meu rol restrito de escritores e follows no Twitter.
Espero que tb. gostem do texto.
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Uma longa adolescência
Não mais. O Futuro, tão anunciado na segunda metade do século passado, parece que finalmente chegou. Presente e imprescindível, ainda que mal-distribuído, ele parece mágica. As inovações cotidianas, de Skype em celulares a chocolates belgas em pleno sertão, são tão rápidas que atordoam. Muitos cultuam Bill Gates, Steve Jobs ou Jeff Bezos, acreditando que a mudança seja invenção deles. Bobagem. Ninguém inventou a confusão, todos são cúmplices.
Alfabetizados à base de Aplicativos, Bluetooth e Compartilhamento Digital, as crianças que nasceram depois de 2005 são a maior evidência dessa transformação. Bem diferentes de seus pais e irmãos mais velhos, são incapazes de imaginar o mundo desconectado e têm dificuldade em diferenciar Deus do Google. Acima de tudo, não entendem o apego de seus pais a títulos, atitudes, relacionamentos, empregos, instituições e hierarquias que, para eles, não fazem o menor sentido.
No mundo que vem por aí não há lugar para absolutos. Tudo se torna cada vez mais relativo, medido por comparações. A ordem foi substituída por um Caos administrado, cheio de variáveis como um videogame. Originais foram trocados por pastiches, o coletivo perdeu importância para o personalizado, a contenção deu lugar ao hedonismo e o comportamento passivo e coletivo parece ter sido substituído por uma postura ativa, egocêntrica, insolente. O mundo offline está cada vez mais parecido com seu equivalente online. A vida continua a imitar a arte.
Sem alarde, a sociedade estática se tornou dinâmica, sujeitando praticamente todas as regras à experimentação. Não existe mais coisa de homem, de mulher, de criança ou de velho. A sexualidade se tornou apenas uma dentre as várias manifestações de uma identidade maleável, que se adapta a cada ocasião. As antigas correntes de pensamento foram combinadas em um ecletismo transmídia, em que hipsters meio intelectuais fazem Yoga em sessões de Pilates, assistem a Missa do Galo, se vestem de branco e atiram flores para Iemanjá.
Não há mais espaço para rótulos ou categorias. Blogs, Twitter, Facebook, YouTube e tantos outros não são revoluções: são a válvula de escape daqueles que, pela primeira vez, passaram a ter voz e influência. A Primavera Árabe e a ocupação de Wall Street mostram que há interesse em participação política, mas não da velha forma. Hoje que Direita e Esquerda fazem parte de um Centrão insosso e desinteressante, a manifestação social mudou de forma.
A Internet e o Celular aceleraram a transformação, ao eliminarem a crença no “amanhã” e colocarem todos em um presente contínuo, hermético, controlado por processos cada vez mais complicados, em que tudo parece mais próximo e transparente. Marshall McLuhan chamaria esse mundo pequeno de Aldeia Global, mas vilarejos são ambientes restritos e limitados, não há aldeia que comporte tantas tribos. Em comunidades fechadas todos queriam pertencer, hoje a regra é se diferenciar. Não há mais tempo para rituais e históricos, a identidade passou a ser externa e baseada em símbolos que mudam rápido. As credenciais são medidas pela informação consumida e exibida em atualizações em mídias sociais.
A mudança é grande e o trabalho para compreendê-la é exaustivo. Como nem todos estão dispostos a esse aprendizado, muitos criam rótulos. Chamam a nova conjuntura de pós-modernidade, de web 2.0, de sociedade do espetáculo, de realidade líquida. Nenhum desses rótulos consegue explicá-la a contento.
Vivemos hoje uma espécie de adolescência, fase turbulenta e necessária, característica de uma mudança de fase. Como a puberdade, não adianta criticá-la, ignorá-la ou classificá-la. É preciso assimilar suas mudanças para reconfigurar a forma de se comportar perante o mundo. Caso contrário a angústia, o estresse e o consumo só aumentarão. E as respostas não virão.
Feliz ano novo. Na beira do abismo que chamamos de Futuro, nada mais será como antes. O homem dos próximos séculos será, provavelmente, bem parecido conosco. Mas falará uma língua intraduzível. Para compreendê-lo é preciso entender a adolescência das interações. E aproveitar o máximo dessa fase para se preparar para o que virá pela frente.
Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas no caderno “Tec” e na Folha.com.
De fato temos mais ferramentas tecnológicas para comunicar de forma mais rápida coisas inúteis, e às vezes úteis; mais ferramentas tecnológicas para acessar informações e conhecimento relacionados a assuntos fúteis, às vezes importantes. Mais ferramentas tecnológicas para construir oferendas ao nada, às vezes para melhorar nossa qualidade de vida. Mas não houve revolução alguma nas grandes questões humanas. (a propósito, Fábio, seus posts são poucos mas sempre relevantes e dignos de compartilhamento e reflexão! Abraços.)
Alô Padilha, obrigado por acessar o blog ! (e assinar o feed). Concordo ipsis literis contigo. Interessante como o futuro “chegou” tecnologicamente, mas continuanos “humanamente” atrasados em tantos aspectos básicos – saúde, educação, relações humanas (e a lista é quase infindável).
Eu mesmo, morando nos EUA por 2 anos, sou testemunha viva disso. Estou a um click de distância de amigos, familiares e tudo o mais, mas ainda imensamente ausente das amizades, convivências, confidências e cotidiano familiar.
A evolução como pessoa está cada vez mais em saber como utilizar positivamente o avanço tecnológico. Filtrar o sinal em meio à selva de ruídos.
Obrigado pelo comentário, visita e assinatura do feed do blog, e também pelo elogio qto aos posts. Espero ter mais tempo para postar mais vezes este ano (mas com a vinda do bebê, isso será muito pouco provável).
Fábio